inverno escuro e opaco. um cor-de-laranja feito pasta. laranja que se ajeita poroso ao nevoeiro gelado. inverno, as pessoas apequenam-se, comprimem-se e andam curvadas. a vida estreita-se entre o chão-de-todos-os-dias e nuvens baixas e feias, ameaçadoras. é assim no inverno, mundo estreitado e pessoas arrastando-se enroladas sobre si mesmas, compensando - talvez - a falta de amplitude do existir. há dias em que as nuvens descem e tocam no chão-de-todos-os-dias. esses são dias tristes, os mais tristes.
o gelo deste inverno rigoroso ocupa agora o lugar dos ossos que se fizeram pasta entre as esplanadas e o calor de Agosto. as telhas e os ossos, amolecendo na lonjura do calor. de tempos a tempos, moles, e o calor. 2 meses apenas, calor que era insuportável - aquele bafo denso que se pendura nos pulmões, pesando.
o gelo deste inverno rigoroso ocupa agora o lugar dos ossos que se fizeram pasta entre as esplanadas e o calor de Agosto. as telhas e os ossos, amolecendo na lonjura do calor. de tempos a tempos, moles, e o calor. 2 meses apenas, calor que era insuportável - aquele bafo denso que se pendura nos pulmões, pesando.
há preto e castanho-escuro-gasto no laranja das telhas moles, lentamente derretidas pelo sol que fura nos verões que agora parecem incrivelmente distantes. e a vida que se estreita, das nuvens baixas e feias, grossas, densas e escuras, e do chão-de-todos-os-dias, agora frequentemente lavado pelas enxurradas. basalto e terra-preta, cinzentos, luzindo no sol que treme tímido. o verão é agora uma ideia que se esfuma ao largo da memória.
e as pessoas caminham, estreitam-se pela vida. uma casa que não é uma casa. ou, um prédio que não parece um prédio. em cima, as telhas moles ondulam, gastas. em baixo, o Afonso com as costas vergadas, logo ali. não são apenas as nuvens baixas que comprimem o Afonso contra o chão-de-todos-os-dias do segundo andar. são as telhas moles que o empurram mole para junto do chão-de-todos-os-dias. as paredes perdem areia, ralas. e o prédio que emagrece a cada nova chuvada, a cada novo vendaval envelhece. o amarelo foi quente, outrora. farto, cansado, vai desistindo de se agarrar às paredes, varrido pela chuva. os fios embrulham-se numa teia tecida sem ordem. e o gato e a janela. o branco sem mácula e a esquadria desalinhada. madeira lavada, madeira cinzenta. outrora lisa, veios largos e fundos abrem-se ao comprido agora. veios que ondulam e estalam. o gato e a janela. e o tempo que não passa. o gato e a janela, arrumando-se em jeito de bibelô. o gato e a janela. janela estreita e o gato ajeitado a um canto, pastoso. enrolado como o Afonso, sempre sentado. e o prédio que se desfaz, pouco a pouco, com o vagar dos que deixaram de se interessar. é como se pequenas térmitas lhe comessem as entranhas. apodrece, envelhecendo triste. a rua, e a porta de entrada que agarra com cuidados a madeira vertical das escadas. escadas apressadas que insistem em subir tão depressa quanto possam, no menor espaço possível. assustadoras, queimam por dentro. a ansiedade da escalada. o nervoso fresco das escadas de madeira verticais seguradas por madeira comida pelo bicho. no início, barrote-de-madeira. depois, barrote-de-madeira, em parte comido pelo bicho. agora, barrote-de-vazios, vazios comidos pelo bicho onde a espaços ainda vai existindo uma madeira, daquela com olheiras profundas, prestes a desistir. e o Afonso e as escadas. um pé, outro pé, e o existir curvado. escadas que não foram feitas para ser subidas por pessoas curvadas. tempos que eram outros. vizinhos. Afonso e a Dona Odete, vizinha-do-primeiro-andar, com jardim tornado horta, e o Tejo encostado ao longe. Tejo que podia ser parede. que importa? os olhos da Dona Odete foram perdendo a vista, com o acumular nos ossos dos dias difíceis. como as cascavéis que a cada muda de pele acumulam mais um anel no chocalho, o ver da Dona Odete foi-se perdendo com o acumular da angústia e do desânimo. Tejo ao longe, podia ser parede de betão-armado, podia ser nada. Dona Odete vê nevoeiro, apenas nevoeiro. aqui e lá. e a horta que outrora foi jardim. buganvílias gordas, caindo flácidas sobre a rua. um violeta violento, aguerrido. horta com hortaliças e nabos. diz que os tempos-são-difíceis, e os nabos matam menos que a fome. diz que sem buganvílias o mundo entristece-se, mas segue vivendo. e o telhado das telhas moles. telhas que se romperam com o acompanhar da vida. o Afonso e a Dona Odete, dois velhos. e as telhas com mais buracos. buracos que aparecem ao ritmo do envelhecer destes dois. gasta-se-lhes a vida, e assim vai o prédio. as telhas moles e as paredes magras. os barrotes sem madeira e ai que alguém me ajude que isto um dia vem abaixo. não, não. nem pensar em consertar o telhado. porque as buganvílias deram lugar às hortaliças. não, não dá. os tempos são espinhosos, é difícil arrastar a existência curvada como está. fora de questão. e a Dona Odete diz que pingo aqui, pingo acolá, nunca fez mal a nenhuma alminha. e o Afonso, mas é muita água ó Odete. e primeiro um linóleo esticado, azul sobre o mole das telhas. e o vento e as enxurradas e o linóleo que foi indo embora. depois o tecido-prata, reluzente. a tocha e o calor no inverno. e o tecido-prata a unir-se às telhas moles. e o laranja comido a dar lugar ao prateado da feira popular. pincel, o tecido-prata a virar laranja-novo, artificialmente uniforme. e o meter-se em trabalhos. e o Afonso com o sorriso que não lhe entrava no focinho há décadas. e o Afonso para a Dona Odete, vês, agora não há pingo nem nada. e a Dona Odete no terraço. e as hortaliças no lugar da buganvília.



