Sunday, January 2, 2011

o aqui em frente de todos os dias

inverno escuro e opaco. um cor-de-laranja feito pasta. laranja que se ajeita poroso ao nevoeiro gelado. inverno, as pessoas apequenam-se, comprimem-se e andam curvadas. a vida estreita-se entre o chão-de-todos-os-dias e nuvens baixas e feias, ameaçadoras. é assim no inverno, mundo estreitado e pessoas arrastando-se enroladas sobre si mesmas, compensando - talvez - a falta de amplitude do existir. há dias em que as nuvens descem e tocam no chão-de-todos-os-dias. esses são dias tristes, os mais tristes.

o gelo deste inverno rigoroso ocupa agora o lugar dos ossos que se fizeram pasta entre as esplanadas e o calor de Agosto. as telhas e os ossos, amolecendo na lonjura do calor. de tempos a tempos, moles, e o calor. 2 meses apenas, calor que era insuportável - aquele bafo denso que se pendura nos pulmões, pesando.

há preto e castanho-escuro-gasto no laranja das telhas moles, lentamente derretidas pelo sol que fura nos verões que agora parecem incrivelmente distantes. e a vida que se estreita, das nuvens baixas e feias, grossas, densas e escuras, e do chão-de-todos-os-dias, agora frequentemente lavado pelas enxurradas. basalto e terra-preta, cinzentos, luzindo no sol que treme tímido. o verão é agora uma ideia que se esfuma ao largo da memória.

e as pessoas caminham, estreitam-se pela vida. uma casa que não é uma casa. ou, um prédio que não parece um prédio. em cima, as telhas moles ondulam, gastas. em baixo, o Afonso com as costas vergadas, logo ali. não são apenas as nuvens baixas que comprimem o Afonso contra o chão-de-todos-os-dias do segundo andar. são as telhas moles que o empurram mole para junto do chão-de-todos-os-dias. as paredes perdem areia, ralas. e o prédio que emagrece a cada nova chuvada, a cada novo vendaval envelhece. o amarelo foi quente, outrora. farto, cansado, vai desistindo de se agarrar às paredes, varrido pela chuva. os fios embrulham-se numa teia tecida sem ordem. e o gato e a janela. o branco sem mácula e a esquadria desalinhada. madeira lavada, madeira cinzenta. outrora lisa, veios largos e fundos abrem-se ao comprido agora. veios que ondulam e estalam. o gato e a janela. e o tempo que não passa. o gato e a janela, arrumando-se em jeito de bibelô. o gato e a janela. janela estreita e o gato ajeitado a um canto, pastoso. enrolado como o Afonso, sempre sentado. e o prédio que se desfaz, pouco a pouco, com o vagar dos que deixaram de se interessar. é como se pequenas térmitas lhe comessem as entranhas. apodrece, envelhecendo triste. a rua, e a porta de entrada que agarra com cuidados a madeira vertical das escadas. escadas apressadas que insistem em subir tão depressa quanto possam, no menor espaço possível. assustadoras, queimam por dentro. a ansiedade da escalada. o nervoso fresco das escadas de madeira verticais seguradas por madeira comida pelo bicho. no início, barrote-de-madeira. depois, barrote-de-madeira, em parte comido pelo bicho. agora, barrote-de-vazios, vazios comidos pelo bicho onde a espaços ainda vai existindo uma madeira, daquela com olheiras profundas, prestes a desistir. e o Afonso e as escadas. um pé, outro pé, e o existir curvado. escadas que não foram feitas para ser subidas por pessoas curvadas. tempos que eram outros. vizinhos. Afonso e a Dona Odete, vizinha-do-primeiro-andar, com jardim tornado horta, e o Tejo encostado ao longe. Tejo que podia ser parede. que importa? os olhos da Dona Odete foram perdendo a vista, com o acumular nos ossos dos dias difíceis. como as cascavéis que a cada muda de pele acumulam mais um anel no chocalho, o ver da Dona Odete foi-se perdendo com o acumular da angústia e do desânimo. Tejo ao longe, podia ser parede de betão-armado, podia ser nada. Dona Odete vê nevoeiro, apenas nevoeiro. aqui e lá. e a horta que outrora foi jardim. buganvílias gordas, caindo flácidas sobre a rua. um violeta violento, aguerrido. horta com hortaliças e nabos. diz que os tempos-são-difíceis, e os nabos matam menos que a fome. diz que sem buganvílias o mundo entristece-se, mas segue vivendo. e o telhado das telhas moles. telhas que se romperam com o acompanhar da vida. o Afonso e a Dona Odete, dois velhos. e as telhas com mais buracos. buracos que aparecem ao ritmo do envelhecer destes dois. gasta-se-lhes a vida, e assim vai o prédio. as telhas moles e as paredes magras. os barrotes sem madeira e ai que alguém me ajude que isto um dia vem abaixo. não, não. nem pensar em consertar o telhado. porque as buganvílias deram lugar às hortaliças. não, não dá. os tempos são espinhosos, é difícil arrastar a existência curvada como está. fora de questão. e a Dona Odete diz que pingo aqui, pingo acolá, nunca fez mal a nenhuma alminha. e o Afonso, mas é muita água ó Odete. e primeiro um linóleo esticado, azul sobre o mole das telhas. e o vento e as enxurradas e o linóleo que foi indo embora. depois o tecido-prata, reluzente. a tocha e o calor no inverno. e o tecido-prata a unir-se às telhas moles. e o laranja comido a dar lugar ao prateado da feira popular. pincel, o tecido-prata a virar laranja-novo, artificialmente uniforme. e o meter-se em trabalhos. e o Afonso com o sorriso que não lhe entrava no focinho há décadas. e o Afonso para a Dona Odete, vês, agora não há pingo nem nada. e a Dona Odete no terraço. e as hortaliças no lugar da buganvília.


Friday, May 28, 2010

sophia’s thai

álcool, mais álcool. um começar devagar: três cervejas e um manhatan. em crescendo: mais manhatans que cervejas moles, aquecidas pelo mijo da noite que entretanto chegou por inteiro, insuportável. grita. esganiça. ruge. morde. mas que fantochada. braços que esvoaçam e acenam ridículos no ar pesado, respirado, gasto e dengoso. ar amolecido em cor-de-pasta-creme. magoa, partilhar da tristeza daqueles outros.

levanta-se uma voz. o vazio e a ausência, lado a lado. voz oca, sem sentido. o controlo que se esvazia, a cada trago. é comprida a tristeza, fria e azulada, que envolve a mesa. há olhares vazios, deambulando desconfortáveis. olhares que evitam tocar-se, enjoados. falta ternura nas gentes daqui, a ternura obesa e desmesurada daqueles que amam, que são amados, assim só. com o olhar. e basta apenas o olhar.

diálogo que vira monólogo, e um gritar permanente. o desconforto ali, logo ali, apoiado na ombreira da porta, perscrutando atentamente. porquê? são os manhatans, pá. nah - é mesmo o descolar continuado e vagaroso da película aprumada, de gala, daquela capa bem polida pelos anos que se empilham naquele pescoço vergado.


3rd & u

quente, ar quente aqui - seco. pólen e calor baço, translúcido. no chão, tufos de pólen e cotão-das-ruas, abraçados. o amarelo-peludo entrelaça as tonalidades da terra carmim. fim-de-tarde de uma 6ª feira pálida, magra, feia.

banco comprido, metal preto - outra vez preto - e curvas. curvas que se alinham como as ondas do Pacífico distante. sons. palavras que esvoaçam. umas aterram em ouvidos incautos. outras lambem várias conversas, sem no entanto fazer parte de nenhuma. pronúncias. leres diferentes de palavras iguais. cadeiras, mesa e pessoas. bebidas, cerveja, comida - fritos, porque aqui tudo se frita, raios. gordura que pesa em pálpebras grandes. olhos gastos, cansados. vermelhidão da luta, constante.

vivem personagens nas conversas de café. uma happy-hour de um lab. pessoas juntas. pessoas que preferiam não estar, juntas assim. conversas que existem mas preferiam não existir. as pessoas que não são e fingem ser. a violência dessa necessidade de ser. o absurdo da antítese, o ser-se que se abomina.


Sunday, May 9, 2010

delta

madeira, círculo - uma mesa cor-mel. espaço estreito, escuro. quase-fenda. cabem cabelos e pó, sujidade e comida, restos de. a base é redonda e bamba. movimento. um mexer pequenino, instável, oscilante e solto. ferro preto, coçado. finas tiras prateadas salpicam-se fundo no escuro do ferro mole, preto e mais preto. o odor é amarelo-laranja gordo. na pele um verde-pesto que cola, quente.

coisas. na mesa, óculos e coisas. havia comida e coisas, restos. batatas house special e um gratinado de pó castanho-verde-escuro. picante que chora e funga. como as nuvens enroladas de pólens frescos que varrem o lixo das ruas. lá fora, o laranja macio do fim-de-tarde encosta-se às árvores. pólen amarelo-de-pingo-no-nariz. uma pequeneza estreita, muitas pernas.

cabelo fino, ralo, uns pelos soltos, dispersos numa face magra, esquálida. o chão é escuro - madeira velha ombro-com-ombro - gasto, linhas pretas, rasgos, sulcos fundos. parede cheira a cinzento rugoso, cinzento frio e volumoso. prateleiras com livros, páginas soltas e uma lareira. o fogo não está. toros grandes em preto-de-fumeiro velho apoiam-se nas pedras.